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Projeto arquitetônico revela camadas históricas do Museu Nacional e o prepara para o futuro

Vista aérea do projeto do Complexo Arquitetônico do Paço de São Cristóvão, sede das futuras exposições do Museu Nacional/UFRJ e suas atividades educativas
Vista aérea do projeto do Complexo Arquitetônico do Paço de São Cristóvão, sede das futuras exposições do Museu Nacional/UFRJ e suas atividades educativas

A reconstrução do Museu Nacional/UFRJ prepara o Paço de São Cristóvão para uma nova etapa de visitação pública. No projeto arquitetônico, achados arqueológicos, áreas expositivas ampliadas, novas instalações, medidas de segurança contra incêndio, acessibilidade e integração com os jardins da Quinta da Boa Vista fazem parte da reorganização do edifício histórico. Os trabalhos são coordenados pela equipe técnica do Projeto Museu Nacional Vive, e a proposta é assinada pelo consórcio H+F Arquitetos + Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano.  

Nesta matéria do Boletim Harpia, a jornalista Mércia Ribeiro conversou com os arquitetos Pablo Hereñú, Fabiana Araújo e Pedro Ivo Freire sobre as decisões que orientam o projeto. A Fabiana destaca que a reconstrução abriu a possibilidade de rever a funcionalidade do edifício como museu de história natural e antropologia, atualizar instalações e infraestrutura, incorporar camadas históricas reveladas durante as obras e organizar novos percursos para o público. 

Projeto da entrada principal, a Sala do Meteorito Bendegó, que passará a apresentar pinturas que ainda eram desconhecidas porque estavam embaixo de camadas de tinta
Projeto da entrada principal, a Sala do Meteorito Bendegó, que passará a apresentar pinturas e detalhes em dourado que ainda eram desconhecidos porque estavam embaixo de camadas de tinta

Ao comentar a reabertura do Museu Nacional, prevista para 2029, Pablo Hereñú diz esperar que o público reconheça a complexidade do processo de reconstrução: 

“A minha esperança é que as pessoas percebam que vão encontrar um outro Museu Nacional, que não é igual àquilo que têm na memória, nas lembranças, mas também não é pior, não é uma ‘versão ferida’ daquele antes do incêndio. É uma outra versão, com algumas perdas em relação àquele e alguns ganhos. Espero que as pessoas processem essa perda, que não é para esquecer. Pelo contrário, a tragédia do incêndio é mais um momento de uma história muito complexa e que agora vai poder ser contada de uma maneira mais completa. Não só o momento do incêndio, mas tudo que veio antes, que o Museu antes do incêndio ainda não contava”, afirma Pablo. 

Uma das salas expositivas no projeto arquitetônico, que terá visão para o esqueleto do cachalote que está sobre a escadaria monumental e preso à claraboia
Uma das salas expositivas no projeto arquitetônico, que terá visão para o esqueleto do cachalote que está sobre a escadaria monumental e preso à claraboia

Entre os ganhos possíveis nesse novo percurso, ele cita elementos que já existiam no edifício, mas não estavam visíveis ao público: “Elementos construtivos, pisos de pedra, a espacialidade da antiga capela são todos elementos que já estavam lá no edifício, mas que ninguém via há um século, talvez, ou até mais, em alguns casos”.

Revelado piso na passagem entre o Pátio do Chafariz e o Jardim das Princesas. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
Revelado piso na passagem entre o Pátio do Chafariz e o Jardim das Princesas. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
Segurança contra incêndio e infraestrutura contemporânea 

A segurança contra incêndio é uma das dimensões prioritárias da reconstrução do Museu Nacional. O arquiteto Pablo Hereñú explica que essa preocupação atravessou todo o processo e também foi analisada por uma espécie de conselho de gestão de risco, com participação de representantes de instituições internacionais e universidades brasileiras. Entre os riscos avaliados, afirma, o incêndio era evidentemente o principal. 

De acordo com Pablo, os sistemas possíveis de prever foram incorporados ao projeto para dotar o Paço de São Cristóvão da maior segurança possível. Entre as medidas estão chuveiros automáticos, saídas de emergência, hidrantes, extintores e a compartimentação horizontal do edifício. Essa compartimentação prevê barreiras para dificultar a propagação do fogo entre diferentes áreas. Entre os blocos, haverá portas corta-fogo com acionamento automático, controlado por automação, sendo uma solução adotada como boa prática em caso de eventual foco de incêndio. 

O arquiteto Pablo Hereñú. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
O arquiteto Pablo Hereñú. Foto: Felipe Cohen (PMNV)

O arquiteto Pedro Ivo Freire acrescenta que a equipe adotou providências além das inicialmente obrigatórias. Ele destaca que os materiais especificados para a obra contam com relatório e certificação contra incêndio, para garantir que não apresentem risco ou que tenham risco mensurável. 

Fabiana Araújo detalha como essas diretrizes se traduzem na intervenção arquitetônica. Segundo ela, o projeto prevê uma infraestrutura contemporânea de combate a incêndio, em conformidade com as normas atuais. Antes, o prédio não contava com recursos como chuveiros automáticos e detecção, nem com instalações compatíveis com um museu contemporâneo, como climatização. A implantação desses recursos, no entanto, precisa ser compatibilizada com a preservação do edifício histórico. Equipamentos de grande porte e passagens de instalações pelas paredes têm impacto direto no Paço. Por isso, as aberturas e furações foram pensadas para ocorrer da forma mais discreta possível, com a menor perda de matéria original e a maior otimização das instalações. 

Camadas históricas reveladas no projeto arquitetônico 

O Paço de São Cristóvão passou por diferentes usos, reformas e reestruturações ao longo dos séculos. No processo de reconstrução, vestígios dessas transformações tornaram-se visíveis, registradas em detalhes e passaram a orientar decisões do projeto arquitetônico: o que preservar, o que recompor e quais elementos apresentar ao público. 

Para o arquiteto Pablo Hereñú, a destruição provocada pelo incêndio ampliou possibilidades de intervenção que, em outra circunstância, seriam muito mais restritas. Partes encobertas do edifício puderam ser acessadas, estudadas e incorporadas ao novo percurso do Museu. A Sala das Vigas é um dos exemplos desse processo. Pesquisas indicaram que o espaço já foi pátio aberto, depois passou a ser ocupado e chegou a ser cogitado como local para a Escadaria Monumental, posteriormente construída em outro ponto do palácio. Após o incêndio, o ambiente ficou sem revestimentos, com as vigas retorcidas expostas. 

No projeto, o local onde foi iniciado o incêndio servirá como espaço de memória. Três pavimentos colapsaram e as vigas ficaram retorcidas. Em séculos atrás, foi um pátio
No projeto, o local onde foi iniciado o incêndio servirá como espaço de memória. Três pavimentos colapsaram e as vigas ficaram retorcidas. Em séculos atrás, foi um pátio e as alvenarias deixam isso evidente

Na reabertura do Museu, as alvenarias da Sala das Vigas ficarão aparentes como estão, como um espaço de memória, visto que o início do incêndio de 2 de setembro de 2018 foi nesse espaço. Segundo Fabiana Araújo, essa decisão permitirá apresentar ao público diferentes sistemas construtivos, marcações de arcos e elementos antes encobertos. O projeto, explica a arquiteta, não busca recuperar o edifício em um único momento histórico, mas integrar diferentes temporalidades com coerência e critério. 

Das pesquisas documentais aos achados arqueológicos 

Desde a primeira etapa, o projeto envolveu pesquisa histórica, levantamento documental e estudo iconográfico do Paço. Parte da documentação indicava elementos cuja execução ainda não era conhecida com segurança. Em alguns casos, essas hipóteses só foram confirmadas pela pesquisa arqueológica. Foi o caso das colunas identificadas em peças gráficas e depois confirmadas por prospecção. Elas aparecem no vão que articula o vestíbulo lateral, a Sala do Bendegó e a Sala das Vigas, ponto importante do percurso de entrada do público no Museu.

Na frente das colunas localizadas na frente da Sala das Vigas, a arquiteta do Projeto Museu Nacional Vive, Cláudia Coutinho, e a arquiteta do consórcio responsável pelo projeto arquitetônico, Fabiana Araújo. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
Perto das colunas localizadas na frente da Sala das Vigas, a arquiteta do Projeto Museu Nacional Vive, Cláudia Coutinho, e a arquiteta do consórcio H+F Arquitetos + Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano, Fabiana Araújo. Foto: Felipe Cohen (PMNV)

De acordo com Fabiana, a proposta era reabrir esse vão, antes com quase metade da dimensão prevista no novo projeto. A abertura integra esses ambientes e exigiu novo reforço estrutural. As colunas em formato arredondado serão recompostas em tijolo e argamassa, retomando seu aspecto original, enquanto o vão será enquadrado por um elemento contemporâneo. 

A incorporação dos achados arqueológicos tem exigido revisões no projeto arquitetônico. Fabiana cita a adequação do Edifício Anexo Alípio de Miranda Ribeiro à descoberta de uma cisterna e ajustes nos níveis dos pisos do Paço, como no Pátio da Escadaria e no bloco 2, onde um piso de pedra decorado será incorporado à circulação. 

A cisterna histórica é um achado arqueológico encontrada inteira e tem uma estrutura robusta. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
A cisterna histórica é um achado arqueológico: foi encontrada inteira e tem uma estrutura robusta. O projeto do Prédio Anexo precisou ser revisto para que o público possa acessá-la pela Quinta da Boa Vista, onde estava encoberta. Foto: Felipe Cohen (PMNV)

Na capela, Pablo menciona fundações, um eixo central e as bases de duas colunas do antigo coro. A descoberta levou à revisão da passarela prevista, que deverá receber dois apoios para tornar a referência ao antigo coro mais completa. 

Achado arqueológico: abside da antiga capela. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
Achado arqueológico: A abside da capela vista de cima. Foto: Felipe Cohen (PMNV)

Para Pablo, esses achados enriquecem o Museu Nacional, que não é um Museu todo de elementos novos. Pedro Ivo Freire amplia essa leitura ao afirmar que a equipe buscou absorver tudo o que fosse relevante para contar a história do edifício e, em alguma medida, do Brasil: dos pisos e paredes aos sistemas construtivos revelados pela perda de revestimentos. Cada achado será apresentado conforme sua condição no circuito histórico expandido. Na ala sul do bloco 1, o piso pé-de-moleque será revelado em uma faixa lateral. Já o piso de vidro aparecerá na sala do educativo, onde bases de alvenarias mais antigas da primeira construção do bloco 1 estão em nível inferior ao piso acabado.

Achados arqueológicos contam a história do Paço e poderão ser conhecidos nas futuras visitas. Foto: acervo do consórcio H + F Arquitetos + Atelier
Achados arqueológicos contam a história do Paço e poderão ser conhecidos nas futuras visitas. Foto: acervo do consórcio H + F Arquitetos + Atelier
Salas históricas: recuperação volumétrica, cromatismo e ornatos 

Nas salas históricas, o projeto arquitetônico adota diferentes estratégias de restauro, conforme os vestígios preservados, a documentação disponível e o nível de informação existente sobre cada ambiente. É o caso da Sala dos Embaixadores e o conjunto de três salas do Torreão Sul: a Sala do Imperador e da Imperatriz, o Oratório e o Gabinete do Imperador. 

No Gabinete do Imperador, por exemplo, havia um forro abobadado, que a marcação está aparente na parede. Já no Oratório, havia uma cúpula com pintura de céu estrelado. Como as pinturas dessas salas se perderam completamente no incêndio, a proposta não é uma restauração integral dos elementos decorativos, mas a recuperação volumétrica, das divisões internas e da espacialidade desses ambientes. 

No caso da volumetria, o projeto busca reconstruir paredes que definiam a divisão das salas e recompor o formato dos forros. Em alguns ambientes, a recuperação ficará limitada à espacialidade, sem reproduzir todos os elementos intermediários de madeira, como rodapés e molduras de vãos. Em outro ponto das salas históricas, o incêndio revelou uma abertura que a equipe ainda desconhecia, visto que ela estava encoberta. 

Projeto arquitetônico do segundo pavimento do bloco histórico, prevê um piso de vidro no terceiro pavimento
Projeto arquitetônico do bloco histórico prevê um piso de vidro no terceiro pavimento

A partir de pesquisas como a da arquiteta Sandra Branco, identificou-se que ali havia existido algo semelhante a uma claraboia, em um período anterior à construção do terceiro pavimento naquela área.

Achado arqueológico: o piso de vidro manterá a memória de onde em séculos atrás foi uma claraboia. Foto: acervo do consórcio H+F Arquitetos + Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano
Achado arqueológico: o piso de vidro no terceiro andar irá manter a memória de onde, em séculos atrás, foi uma claraboia. Foto: acervo do consórcio H+F Arquitetos + Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano

De acordo com Fabiana, como esse trecho funcionava como cobertura, o projeto propõe manter a memória dessa abertura por meio de um piso de vidro. A solução não recompõe a antiga claraboia na cobertura, mas preserva a leitura histórica desse elemento no percurso do visitante. 

Segundo pavimento do bloco histórico, onde no terceiro terá um piso de vidro. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
Segundo pavimento do bloco histórico, onde no terceiro terá um piso de vidro. Foto: Felipe Cohen (PMNV)

Há ambientes em que o projeto prevê recuperar ornatos, pinturas e cromatismo. Fabiana menciona uma pintura em stencil descoberta durante o processo de estudo minucioso das paredes do palácio. Por se tratar de um padrão repetido, será possível, a partir desse desenho, reproduzir uma nova pintura. A arquiteta também cita placas de Stucco Marmo, técnica artística de imitação de mármore, algumas em coloração vermelha e outras em azul. Segundo ela, parte dessas placas se perdeu, mas a proposta é restaurar e completar os trechos preservados por meio de um processo aprovado pelo Iphan, que simula o processo original.  

Fabiana Araújo apresentando a pintura stencil que ainda era desconhecida e será replicada, o espaço dos entremeios e trecho de Stucco Marmo. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
A arquiteta Fabiana Araújo apresentando a pintura stencil que ainda era desconhecida e será replicada, o espaço dos entremeios e trecho de Stucco Marmo com a coloração vermelha. Foto: Felipe Cohen (PMNV)

Elementos de madeira, como rodapés, rodameios e molduras, foram consumidos pelo fogo. Como não havia vestígios suficientes para reproduzi-los exatamente, a equipe propôs elementos contemporâneos que cumpram a mesma função e respeitem a proporção dos originais, mas com traçado ligeiramente alterado e mais simplificado. No caso dos ornatos de estuque e argamassa, Fabiana Araújo explica que mais de 90% puderam ser moldados durante a primeira etapa da obra e serão reproduzidos. Nos poucos casos de sancas que se perderam completamente, a equipe estudou elementos semelhantes dentro do próprio palácio para orientar a reprodução e a recomposição. 

Coluna e Stucco Marmo com coloração azul, e que estava encoberto por camadas de tinta até setembro de 2018. Foto: Felipe Cohen (PMNV)
Embaixo de coluna, placa em Stucco Marmo com coloração azul, e que estava encoberta por camadas de tinta até setembro de 2018. Foto: Felipe Cohen (PMNV)

A recuperação cromática também exige cautela. Fabiana explica que as camadas de pintura sofreram alterações com o tempo e com o incêndio. Por isso, não é possível afirmar que se chegará exatamente à cor original de cada detalhe. A própria ideia de original, segundo ela, é relativa nesse contexto do Paço de São Cristóvão. O trabalho busca se aproximar daquilo que a equipe entende como mais provável, a partir de prospecções, testes, análises e, claro, sempre com o acompanhamento do IPHAN. Parte desse material é enviada a laboratório. Durante a execução, ainda podem surgir novas informações. No caso do piso do segundo e do terceiro pavimento do bloco histórico, ele será de madeira. No térreo, o piso será de basalto, considerado mais apropriado à circulação. 

Reorganização para o Paço ficar exclusivo para exposições, educativo e acolhimento 

Uma das premissas mais importantes da reconstrução é a destinação integral do Paço de São Cristóvão às exposições, suas atividades educativas e acolhimento. Antes do incêndio, o palácio abrigava também laboratórios, escritórios, áreas administrativas, acadêmicas, auditório, reservas e espaços técnicos. Esses usos foram realocados para outras áreas do Campus de Pesquisa e Ensino do Museu Nacional e, em parte, para o Prédio Anexo.  

O arquiteto Pedro Ivo afirma que, antes do incêndio, cerca de um terço da área era dedicada à exposição. Agora, haverá uma ampliação significativa. O novo programa inclui grandes salas para exposições temporárias, cafés e outros espaços de visitação, além do auditório que ficará no Prédio Anexo. A reorganização também permitirá acolher melhor os acervos expositivos de grande porte. Fabiana observa que, antes, algumas peças ficavam em salas cujo pé-direito não era compatível com a escala do objeto exposto. O projeto prevê salas com pé-direito duplo e triplo para acomodar esse tipo de acervo. 

O projeto é pensado estrategicamente para o museu de história natural e antropologia com seu acervo que tem peças de grandes dimensões
O projeto é pensado estrategicamente para o museu de história natural e antropologia com seu acervo que tem algumas peças de grandes dimensões
Acessibilidade como parte da rota principal 

No projeto arquitetônico de reconstrução do Museu Nacional, a acessibilidade foi pensada em cada detalhe. Pablo Hereñú explica que a proposta é transformar, sempre que possível, a rota acessível na própria rota principal de visitação, para que pessoas com dificuldade de locomoção não precisem se separar do grupo, buscar caminhos alternativos ou depender de auxílio para percorrer o edifício. 

Projeto para futura sala expositiva

Para o arquiteto, esse entendimento amplia o próprio sentido de acessibilidade. O objetivo é permitir que diferentes públicos possam acessar e usufruir plenamente do Paço de São Cristóvão, dos jardins e das demais áreas do Museu, com circuitos mais simples de visualizar e seguir. Esse princípio orientou decisões de circulação e organização dos espaços. Pablo destaca que o palácio, antes do incêndio, não havia sido construído originalmente para ser museu e tinha uma configuração “bastante labiríntica”. No novo projeto, o reposicionamento das circulações busca criar percursos mais claros, reduzindo a necessidade de o visitante pedir ajuda, informação ou orientação ao longo da visita. 

A acessibilidade também aparece em soluções voltadas a diferentes formas de uso do Museu Nacional. Pablo cita, por exemplo, a previsão de guarda-volumes com espaços maiores para famílias que frequentam a Quinta da Boa Vista e levam isopor com lanche e almoço. Sem essa possibilidade, esse público poderia ficar impedido de visitar as exposições com a família completa. Para o arquiteto, essa também é uma ação de acessibilidade. O projeto prevê ainda uma sala de acalmamento para pessoas neurodivergentes. E a comunicação visual também foi considerada nesse entendimento mais amplo: um dos exemplos citados por Pablo é evitar textos na vertical, já que parte da população tem dificuldade de leitura nesse formato. 

Além dessas diretrizes, o edifício impôs desafios físicos importantes. A arquiteta Fabiana Araújo explica que o Paço de São Cristóvão está assentado sobre terreno rochoso. Durante os trabalhos de arqueologia, em vários pontos a escavação encontrava a rocha poucos centímetros abaixo do nível do piso acabado. Para resolver os desníveis entre ambientes, a equipe distribuiu pequenas rampas e, sempre que possível, planos inclinados de baixa inclinação, quase imperceptíveis para o público em geral. A solução permite vencer diferenças de nível sem transformar a acessibilidade em uma experiência apartada do percurso principal. 

Anexo, jardins e novos percursos 

A reorganização do Paço de São Cristóvão passa também pelo Prédio Anexo Alípio de Miranda Ribeiro, o Jardim das Princesas e o Jardim Contemporâneo. A arquiteta Fabiana Araújo avalia que a concentração de infraestrutura no Anexo, incluindo o auditório, contribui para liberar o Paço para ser exclusivo para as exposições e suas atividades educativas.

Projeto do auditório no Prédio Anexo Alípio de Miranda Ribeiro, onde antes ficavam laboratórios e coleções científicas, por exemplo
Projeto do auditório no Prédio Anexo Alípio de Miranda Ribeiro, onde antes ficavam laboratórios e coleções científicas, por exemplo

Buscando requalificar o Anexo e sua relação com o monumento e a paisagem, a equipe propôs liberar o edifício da muralha, corrigir problemas de iluminação e ventilação natural e aproveitar a estrutura existente com uma nova composição junto ao entorno paisagístico. A integração entre edifício e jardins também altera a experiência de visitação.  

O arquiteto Pedro Ivo Freire destaca a abertura do Jardim das Princesas ao público pela primeira vez e a criação do Jardim Contemporâneo acima do Anexo. O espaço, antes usado como pátio de serviço, passa a ser uma área de exposição externa e de uso do Museu e da Quinta da Boa Vista. 

O arquiteto Pedro Ivo Freire. Foto: acervo pessoal
O arquiteto Pedro Ivo Freire. Foto: acervo pessoal

A ideia do novo jardim surgiu no Concurso de Arquitetura e Restauro do Paço de São Cristóvão, sede do Museu Nacional/UFRJ, a partir da leitura do eixo de composição formado pela Alameda das Sapucaias, pelo Paço, pelo Pátio do Chafariz e pelo Jardim das Princesas. Pablo pontua que a intervenção na cobertura do Anexo permitiu reforçar uma simetria sugerida pelo conjunto, embora aquele ponto nunca tivesse sido, de fato, um jardim. Pedro acrescenta que o projeto também resgata um percurso histórico interrompido nos anos 1940, com a construção do atual Anexo. A nova rampa permitirá que quem vier da área do BioParque e do restaurante acesse o Museu por esse caminho reconstruído. 

Um projeto coletivo aprovado por diferentes instâncias 

O arquiteto Pedro Ivo Freire destaca que o projeto arquitetônico do Museu Nacional é resultado de um processo interdisciplinar, construído por muitas equipes e atravessado por diferentes critérios. As decisões não envolvem apenas questões técnicas, mas também dimensões simbólicas, sensíveis, públicas, de gestão, obra e orçamento. De acordo com ele, o desafio é mediar essas demandas para que o projeto atenda tecnicamente ao edifício e, ao mesmo tempo, à população, aos gestores, à pesquisa e aos visitantes. Trata-se de um patrimônio público com forte importância simbólica e coletiva. 

Mesmo após o incêndio, o Museu Nacional permanece como marco simbólico na paisagem do Rio de Janeiro, além de referência da ciência e da cultura brasileira. Essa importância, afirma Pedro, precisa ser preservada. Uma das estratégias do projeto está na relação entre exterior e interior. As áreas externas e as fachadas se mantiveram mais preservadas, devido à espessura das paredes. Internamente, as perdas foram maiores. Por isso, o visitante continuará reconhecendo o Museu na paisagem, mas encontrará, ao entrar, uma experiência muito diferente. 

O arquiteto ressalta ainda que o Museu Nacional já era um edifício em constante transformação antes do incêndio. O projeto atual busca preservar e integrar elementos capazes de contar a história do palácio e, em alguma medida, do Brasil: da arqueologia aos pisos, paredes, sistemas construtivos e marcas de alterações anteriores. Para Pedro Ivo, o Paço deve continuar sendo pesquisado, compreendido e transformado ao longo do tempo, enriquecendo a exposição e ampliando as histórias apresentadas ao público. 

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O desenvolvimento do projeto de arquitetura e restauro do Paço de São Cristóvão é compatibilizado com a evolução de projetos complementares, como museografia, acessibilidade universal, segurança, entre outros. Esta coordenação é realizada pelas arquitetas que atuam na gestão do Projeto Museu Nacional Vive: Lucia Basto, Larissa Graça, Nathalia Rocha e Claudia Coutinho. O time escalado pelo consórcio H+F Arquitetos + Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano para atuar neste projeto é formado pelos arquitetos Pablo Hereñú, Eduardo Ferroni, Fabiana Araújo, Julia Moreira, Pedro Ivo Freire e Sandra Branco.

PROJETO MUSEU NACIONAL VIVE