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3º Diálogos da Reconstrução fortaleceu conexões entre quilombolas e o Museu Nacional

A terceira edição dos Diálogos da Reconstrução aconteceu nos dias 28 e 29 de outubro de 2026, na Sala das Vigas do Museu Nacional/UFRJ, com o tema “Memórias, saberes e patrimônios quilombolas“. Um dos momentos memoráveis da edição foi a assinatura do termo de doação da indumentária de Maria Bernadete Pacífico, a Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares (Simões Filho-BA). A peça foi entregue pelo filho, Jurandy Wellington Pacífico. “Não é um simples objeto. Isso aqui é demonstração de ancestralidade, de memória”, afirmou.

Na abertura, a vice-diretora do museu, Juliana Sayão, lembrou que o programa recebeu comunidades de origem em 2024 e povos indígenas em 2025. A gerente executiva do Projeto Museu Nacional Vive, Lucia Basto, definiu o diálogo como “o único caminho para devolvermos à sociedade um museu mais plural e democrático”. Professor emérito, o antropólogo João Pacheco de Oliveira resumiu um dos objetivos do encontro: não se trata mais de atuar sobre essas populações, se trata de atuar com elas”. A diretora do Instituto Cultural Vale, Luciana Gondim, reafirmou compromissos dos parceiros da reconstrução do Museu com iniciativas que ampliem o diálogo com os diferentes setores da sociedade.

Lucia Basto (gerente executiva do PMNV), João Pacheco de Oliveira (antropólogo e professor emérito MN/UFRJ), Bia Nunes (presidente da ACQUILERJ), Jurandy Pacífico (professor e filho de Mãe Bernadete), Juliana Sayão (vice-diretora do MN) e Luciana Gondim (diretora do Instituto Cultural Vale) compuseram a mesa de abertura e de doação oficial da indumentária. Foto: Felipe Cohen/PMNV

Mediada pela historiadora Michele Agostinho, do Setor de Etnologia e Etnografia, a mesa “Mulheres na luta pela terra – Mãe Bernadete presente!” reuniu Bia Nunes, presidente da Acquilerj; Érida Ferreira, do Quilombo Ferreira Diniz (RJ); Selma dos Santos Dealdina Mbaye, do Coletivo de Mulheres da Conaq; e Jurandy. Bia recordou que a parceria com o museu nasceu em videochamadas durante a pandemia e celebrou o resultado: “Ninguém está falando por nós”.
Historiadora formada pela Uerj, Érida falou de reparação e da terra: “A gente só não quer que ela seja tirada da gente”. Para ela, ter espaço no museu “não é um presente. É contar a história do Brasil”. Selma trouxe números: dos mais de 8 mil quilombos do país, “menos de 150 são titulados”. Em relato emocionado sobre a convivência com Mãe Bernadete, lembrou a casa sempre cheia e a comida farta como forma de cuidado. Repetiu também o pedido que fez ao governo federal pela titulação de Pitanga dos Palmares: “É a única coisa que o Estado brasileiro deve à dona Bernadete”. Segundo ela, a doação pode ser a primeira representação quilombola materializada em um museu brasileiro.

Érida Ferreira, Bia Nunes, Jurandy Pacífico, Selma Dealdina Mbaye e Michele Agostinho. Foto: Felipe Cohen/PMNV

Jurandy contou a trajetória da mãe e do irmão, Binho do Quilombo, assassinado em 2017, e comparou a titulação do território a “um colete à prova de bala”. Anunciou ainda que Pitanga dos Palmares, onde fica uma barragem que abastece a região há 62 anos, finalmente terá água potável em novembro. Sobre a iniciativa do museu, disse: “Não existe política para nós sem nós. É dar protagonismo aos protagonistas”. E encerrou: “O legado continua. Mãe Bernadete presente”

Do quilombo à universidade: presença, permanência, transformação

O segundo dia do encontro levou o debate do território quilombola para outro território em disputa: a universidade. Na abertura da mesa “Do quilombo à universidade: presença, permanência, transformação”, a museóloga Clarisse Rosa, do Setor de Etnologia e Etnografia (SEE/MN/UFRJ), lembrou que o Museu Nacional é anterior às próprias universidades brasileiras e propôs uma reflexão sobre quem produz conhecimento no país. “A universidade nunca foi um espaço neutro”, afirmou. Para ela, as cotas não foram concedidas, “foram conquistadas pelos movimentos sociais”.

Presidente da Acquilerj, Bia Nunes abriu as falas de maneira assertiva: “A academia ainda não nos quer, a academia ainda não nos cabe. A academia ainda nos tolera”. Ela listou obstáculos concretos: territórios distantes, sem metrô nem trem, e estudantes que dependem de um navio da Marinha para sair da Ilha da Marambaia. Contou o caso de uma estudante de 70 anos que deixou a graduação por causa de um documento nunca resolvido. O episódio levou a uma parceria com a UFRJ para validar, com apoio da Conaq, a documentação de candidatos quilombolas de todo o país. Bia também cobrou mudança na relação com a pesquisa: “A gente não quer mais ser objeto de pesquisa. A gente quer ser o pesquisador”. E completou: “Nós estamos aqui, vivos, reais. Não estamos dentro do livro”.

Liderança do Quilombo Bongaba (Magé-RJ), Pai Paulo de Ogum defendeu uma “abertura epistemológica” que enxergue cada estudante em sua singularidade, para que ele não desista no meio do caminho. Contou que o pré-vestibular social criado no quilombo aprovou 17 de 18 alunos no último ano, hoje espalhados por UFRJ, UFF, Rural e Uerj. “A cota não é favor, é um direito”, resumiu. “Nós somos pretos, nós não andamos, nós desfilamos.”

Pai Paulo de Ogum

Um dos momentos mais emocionantes veio de Rhayane Alves, do Quilombo de Marinhos (Brumadinho-MG), que ingressou neste ano no mestrado do PPGAS/MN pela cota quilombola. Ela deixou o roteiro de lado, mostrou a foto dos bisavós e falou do adoecimento que viveu na graduação. “Antes de mim, eu tive os meus mestres, eu tive os meus bisavós”, disse. Sobre ver os saberes da família reclassificados pela academia, como quando chamam de “planta PANC” o ora-pro-nóbis e a taioba de sua infância, foi direta: “Isso daqui é minha sobrevivência”. Ao fim da fala, Mestre Irineia, do Quilombo do Muquém (AL), pediu a palavra na plateia para abençoar a jovem.

Diretora de Relações Étnico-Raciais da Superintendência-Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (SGAADA/UFRJ), Sandra Batista revisitou a história da escravidão pela perspectiva de quem resistiu e afirmou que “cota não é esmola”. Informou que a UFRJ recebeu 27 candidatos quilombolas em 2026, “muito pouco”, mas um avanço, e que a universidade não aplica banca de heteroidentificação a indígenas e quilombolas, que apresentam memorial. Encerrou pedindo “uma universidade que não apenas os receba, mas que assuma a responsabilidade de garantir direitos”.

No debate, a equipe do SEE propôs estudar concursos específicos para que detentores de saberes tradicionais integrem o quadro permanente do museu, atuando junto às coleções. Selma Dealdina, da Conaq, defendeu títulos de doutor honoris causa para mestres quilombolas ainda em vida. Jurandy Pacífico, filho de Mãe Bernadete, sugeriu que os quilombos incluam em seus protocolos de consulta a exigência de devolução das pesquisas. A mesa terminou com uma homenagem à mãe de Selma, dona Rosa dos Santos Dealdina, que formou pesquisadores sem nunca ter sido citada por eles.

Rhayane Alves, Sandra Batista e Clarisse Rosa

Mãos que moldam, fios que unem: arte e ancestralidade

A última mesa da terceira edição dos Diálogos da Reconstrução trocou o debate institucional pelo trabalho das mãos. “Mãos que moldam, fios que unem: arte e ancestralidade” reuniu a ceramista Mestre Irineia, do Quilombo do Muquém (União dos Palmares-AL), a liderança Eliana Lima M. Fernandes, do Quilombo do Gurutuba (MG), e a artista visual Gabriella Marinho, de São Gonçalo (RJ), com mediação de Thaís Mayumi Pinheiro (SEMU/MN/UFRJ).

Aos 79 anos, reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas, Irineia Rosa Nunes da Silva contou que começou no barro fazendo ex-votos: “um pé, uma cabeça, coração, qualquer parte do corpo”, moldados crus para pagar promessas. Com o tempo vieram as cabeças queimadas e as peças do “beijo”, que hoje circulam fora do país. Ela descreveu cada etapa, da retirada do barro à queima de sete a oito horas no forno a lenha, e deixou um recado aos netos: o barro é ouro, desde que se trabalhe com ele. Com dores nas mãos, a mestra hoje divide a produção com a filha, Mônica Nunes da Silva, que relatou a enchente de 2010 no Muquém. Na ocasião, 52 pessoas passaram a noite em cima de uma jaqueira. A tragédia virou peça: a jaqueira de barro com as figuras da comunidade, inclusive as duas primas que subiram na árvore com um cachorro e uma galinha.

Thais Mayumi Pinheiro, Eliana Fernandes, Mestre Irineia, Mônica Nunes e Gabriella Marinho. Foto: Felipe Cohen/PMNV

Eliana apresentou o trabalho das tecelãs do Gurutuba, que desde 2016, com o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA), retomaram o plantio de algodão agroecológico, a fiação, o tingimento com anil e umburana e o tear manual. Lembrou a avó, que encomendou à tecelã dona Vila a própria mortalha em algodão, porque os mais velhos “não querem morrer e vestir qualquer tipo de roupa”. “A nossa academia a gente faz no dia a dia”, disse. “Pedalar um tear é uma academia.” Contou ainda como o projeto passou a garantir que o pagamento pelo algodão caísse na conta das próprias mulheres, e entregou ao museu uma blusa produzida na comunidade. A história do grupo vai virar o filme “Um fio de resistência”, previsto para 2027.

Gabriella Marinho, jornalista de formação, leva oficinas de argila a escolas de São Gonçalo e contou que uma delas acaba de expor mais de 500 vasinhos feitos pelos alunos. Na mesa, anunciou o projeto que vai desenvolver com o Museu Nacional: uma escultura em cerâmica feita com fragmentos das ruínas do incêndio. Ao percorrer o palácio, encontrou um tijolo com a marca do dedo de uma pessoa escravizada que o moldou. “Eu considero isso uma forma muito potente de reescrever a história desse lugar”, afirmou. “Foram mãos livres que construíram esses vasos.” Para ela, cerâmica e tear são tecnologia ancestral: “Desde o fundamento da cerâmica, a gente faz cerâmica do mesmo jeito”.
Na plateia, a equipe das novas exposições lembrou que preservar esses saberes depende de preservar o ambiente: sem o território, não há barro nem algodão.

No encerramento, a historiadora Michele Agostinho, do Setor de Etnologia e Etnografia, anunciou que o museu está adquirindo obras de Mestre Irineia, Gabriella e Eliana, com apoio do CNPq, por meio de projeto coordenado pelo professor João Pacheco de Oliveira, e destacou a importância de trazer a arte para um museu de ciência.

ASSISTA À ÍNTEGRA DOS DEBATES:
DIA 1
DIA 2


O programa “Diálogos da Reconstrução” é uma realização do Museu Nacional/UFRJ (Setor de Etnologia e Etnografia e Coordenação de Novas Exposições) e do Projeto Museu Nacional Vive (UFRJ/UNESCO/Instituto Cultural Vale), em parceria com a Associação de Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro (ACQUILERJ), Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas (CONAQ), e conta com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

PROJETO MUSEU NACIONAL VIVE